dezembro 31, 2008

Os nossos votos

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E, no entanto, é preciso sonhar

Por Baptista-Bastos, escritor e jornalista, in «Diário de Notícias»

Olho lá para baixo e há muitas coisas, vozes, rostos e infâmias oblíquas que já foram. O tempo não mata as dores: adormece-as. Nada é para sempre. Chega-se ao fim do ano e os homens antigos e experimentados sabem que as lembranças adquirem uma simplicidade contrária ao ressentimento. Todavia, foi um áspero, infausto e rude ano, este, que vai embora.

Houve uma época em que, com alvoroço e arfante ansiedade, escrevi: "A esperança tem sempre razão." O sonho andava à solta e eu ainda não aprendera a natureza dos perigos contidos no sonho. Mas havia sempre alguém sorrindo para mim e um horizonte luminoso à nossa espera. Reconheço, com tristeza, que a frase era um pouco imprudente, embora, talvez, nos lavasse moderadamente a alma.

Chegamos a hoje e, num bulício de fé, repetimos os pedidos do ano passado, embalamos os desejos do último dia do último Dezembro, esquecidos de que a doçura e a clemência deixaram, há muito, de nos visitar. E, no entanto, é preciso não esquecer: este mundo seco, desabrido e falho de ternura, é o nosso chão, limitado pela geometria que traçámos, erguido pela greda com a qual o moldámos.

O português acalenta um tédio minucioso, acaso desatento e pueril, e evoca, no remate de cada ano, um mundo que lhe foi hostil, na vaga crença de que o novo será melhor. Nunca foi. Entre a mediocridade e a nostalgia de uma falaciosa idade de ouro vivemos nessa ilusão patética gravada numa frase sem sentido: saudades do futuro. E, no entanto, é preciso ter ilusões; sonhar, porque não sonhar?, que, entre as esperas e as ausências, temos de construir a instância do desejo.

O homem antigo e rodado que vos fala aprendeu que não existe limite de idade para o sonho, e que a volúpia de se estar preso a este mundo corresponde à nossa sede de eternidade. Se há lugar para a tristeza humana, também o há para a aspiração de felicidade que nos acalenta. Em qualquer idade procuramos um qualquer absoluto, uma ilusão fixada no eixo da nossa própria natureza, que tanto suporta a juventude como a velhice.

No final do ano que aí vem, 2009, as aspirações deste ano, que fecha, serão aspirações velhas, sendo, embora, as mesmas, com ligeiras variantes. Queremos hoje o que quisemos há 12 meses. Um pensamento horrivelmente banal, um pequeno sopro de nostalgia, um meneio cheio de silêncio - e, afinal, um módico favor da vida. O que vai desaparecer é outra forma de morte de nós próprios.

Olhamos lá para baixo e tudo parece perdido nas sombras e nos sossegos incautos de quem somente ambiciona esquecer, esquecer, esquecer, e dormir na paz sonhada de que o ano seguinte será melhor.

Porém, ninguém sai inteiro de cada ano que fecha.

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dezembro 30, 2008

PR promulgou OE

O Presidente da República promulgou hoje o Orçamento de Estado para 2009 e já terá informado o Governo de José Sócrates da sua decisão, noticiou esta noite a SIC Notícias.

Publicado por dizerbem em 11:36 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 29, 2008

Está no «Blogoperatório»

Estatuto das lamentações
O texto é do José Teófilo Duarte e está no «Blogoperatório»:
“O Presidente amuou por causa do já famoso Estatuto dos Açores. O Governo insistiu. O Parlamento, quase em peso, apoiou a coisa. O PSD, comandado pelo evanescente Rangel, resolveu dar o dito por mais ou menos não dito e absteve-se de responsabilidades. O PCP saltou inicialmente em grande alvoroço mas depois calou e andou. O BE assobiou para o lado e borrifou-se na opinião do Presidente. O Presidente passou-se. Em segunda investida disparou em todas as direcções. Resumindo: um amuo presidencial provoca uma balbúrdia parlamentar. Tudo isto é para lamentar.”

Publicado por dizerbem em 11:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 28, 2008

Convém ler

O Correio da Manhã dá-lhe duas páginas, mas, com honestidade aponta para que se leia, na integra, no site do «Correio da Manhã». Falamos da entrevista que António Ribeiro Ferreira (Correio da Manhã) e Elisabete Pato (Rádio Clube) fizeram ao filósofo José Gil.

“Há um combate entre o sorriso de José Sócrates e a crise mundial”

José Gil, filósofo, acusa o primeiro-ministro de ter um projecto de carreira pessoal, autocrático, com um sorriso permanente. E o Governo de andar de fato cinzento.

Correio da Manhã/Rádio Clube – Sente-se bem no País em que vive?
José Gil – Razoavelmente. Não me sinto muito bem. A minha relação com Portugal é uma relação difícil e pode compreender-se porque eu sou um filho de um ex-colono, que viveu em Portugal, no fundo, dois anos. Aos dezassete, dezoito anos e depois voltei depois de praticamente trinta e cinco anos vividos, uma vida vivida em outro País.

EP – Em França.- Em França.

EP – Um dos grandes sucessos, o livro que escreveu ‘Portugal, Hoje – O Medo de Existir’, foi publicado em 2004 e retracta a instabilidade, o desnorte, o medo de existir, sobretudo, e também uma análise à actualidade de então. O livro é publicado ainda com Santana Lopes no poder. Hoje escreveria o mesmo livro?
- Escreveria talvez, isto não tem muito sentido, noventa e tal cento do livro. Noventa e tal por cento escreveria da mesma maneira. Se bem que muitas coisas tenham mudado.

ARF – Para melhor ou para pior?
- Umas para melhor, outras para pior. E isto não é para fazer um equilíbrio. Não. Parece-se que são coisas diferentes. O que evoluiu para melhor é diferente daquilo que evoluiu para pior.

ARF – E o que é que evoluiu para melhor em Portugal nestes quatro anos?
- Olhe. Parece-me que há em Portugal cada vez mais uma aprendizagem por parte da comunidade portuguesa e da sociedade civil da democracia, da democracia dos direitos. E isso é bom, isso parece-me melhor. Depois há um desenvolvimento individual da criação cultural. E isso também me parece muito melhor. De certa maneira há, curiosamente é paradoxal o que vou dizer, curiosamente há uma espécie de liberdade maior mas que não vem do poder político, é uma liberdade maior que vem dos conflitos, dos embates sociais, do facto desses embates aparecerem mos meios mediáticos e serem consciente na parte da população. Também o facto de Portugal estar cada vez mais consciente do que se passa, como se dizia antigamente, lá fora. Quer dizer, Portugal está cada vez mais lá fora, o que dá uma reacção cada vez mais dentro. E isto é devido certamente a reacções sociais, das pessoas.

EP – Mas é a mentalidade dos portugueses que está a mudar ou são os mais novos que nasceram já depois do 25 de Abril, da Revolução de 74, que já têm outra forma de pensar ou não?
- Não. Teriam outra forma de pensar, mas não têm. E não têm, primeiro, porque herdam uma velha forma dos pais. E naquilo que mudam na sua vida de adolescente, de jovem da universidade ou do trabalho, pura e simplesmente, eles vão encontrar umas estruturas, vão encontrar quadros de vida, escritórios, aonde encontram, aonde vão novamente ter de se moldar aos velhos comportamentos, às velhas mentalidades.

EP – Salazar ainda está na fonte.
- Ai, eu acho que sim.

EP – Mesmo nos mais novos?
- Absolutamente. Mesmo que seja subliminarmente ou inconscientemente ele está. É claro. Para mim é claro.

ARF – Ainda somos um País salazarento?
- Ai somos. Somos um País salazarento em certas coisas. Não é um País salazarento.

ARF – Claro. Mas o que domina, o que importa, o que fixa, como disse a propósito dos jovens, ainda é um certo ambiente cultural que os domina, que os leva a pensar assim e também a comportarem-se de uma forma pequenina, como refere. Os portugueses gostam de ser pequeninos?
- Os portugueses gostam de ser pequeninos. Sabe, muitas vezes eu comparo as reacções às reacções dos habitantes das ilhas. Eu conheci uma ilha, conheci muito bem uma ilha onde vivi, que foi a Córsega, e fiquei de tal maneira marcado por aquelas mentalidades que quando vim para Portugal eu era capaz de reconhecer, ao fim de dez minutos de conversa, que aquela pessoa vinha dos Açores. Sem saber mais nada, outro indício. Quer dizer, há qualquer coisa de muito específico no habitante da ilha. É que a ilha é como um corpo de onde se sai e para onde se volta quase necessariamente. É muito difícil as pessoas desligarem-se da ilha.

EP – Nós somos um povo ainda fechado?
- Nós somos um povo ainda muito fechado que se está agora, agora, agora, quando eu digo agora são meses a abrir-se assim.

EP- E quantas gerações são precisas para nos abrirmos?
- Não sei. Não sei. Se há coisa mais difícil de mudar é o que se chama mentalidades, não é?

ARF – Mas há aqui um paradoxo. Temos muito o espírito da ilha, mas fomos um Império. Andámos por todo o mundo, conhecemos o mundo há muitos séculos. Porque temos sempre esse espírito da ilha?
- Nós não temos sempre. Primeiro, lembre-se que o nosso Império é um Império desmedido para a nossa capacidade e para a nossa economia. Em segundo lugar, só para lhe lembrar assim frases, lembre-se que o Salazar chamava ao nosso Império a nossa quinta. Isto é típico. Quer dizer que o Império não constituía um horizonte. Quer dizer, digamos, uma palavra de que eu gosto muito, não era um fora. O fora é um desconhecido. Não. Eu não estou a brincar, nem estou a forjar o que quer que seja. Lembro-me que quando vim de Lourenço Marques para cursar a universidade cá havia pessoas que me perguntavam: “Há leões em Lourenço Marques? Passeiam-se na rua?” Está a ver o desconhecimento total.

ARF – Referiu que um dos aspectos positivos em Portugal nestes últimos anos era as pessoas conhecerem melhor a democracia e estarem a viver melhor a democracia. Mas isto está a incomodar o poder político?
- Claro que está.

ARF – A incomodar muito?
- Esse é o aspecto, se falarmos unicamente no plano político. Portugal não é o plano político. Não é. Felizmente é muito mais do que isso. Não vale a pena bater no ceguinho, toda a gente fala nisso, eu também. Há realmente uma nova tendência para o autoritarismo, para uma nova forma de autoritarismo.

EP – Arrogância?
- Arrogância, autoritarismo. Quer dizer, desprezo da democracia em nome da vontade autocrática de um governante ou dois.

ARF – É o que se passa no caso dos professores? Nomeadamente neste momento em que os professores estão na rua, manifestações imensas. Refere-se muito à não-inscrição. A não-inscrição neste caso é o Governo ignorar isso tudo?
- Totalmente. É um exemplo típico de não-inscrição. Totalmente. Não só não-inscrição. Há pior do que isso. Eu ouvi o secretário de Estado, como milhões de pessoas ouviram na televisão, o secretário de Estado Pedreira dizer, depois das assinaturas, isto foi há três dias.

ARF – O abaixo-assinado.
- O abaixo-assinado apresentado no Ministério da Educação. Dizendo, mas isso podia ser forjado. Quer dizer. Eu fiquei com vergonha.

ARF – Porque não era preciso apresentar a escola.
- Não era preciso apresentar. Poder-se-ia forjar.

ARF – As assinaturas.
- Quer dizer. Não são as 60 mil assinaturas. É o facto de forjar. Percebe?

ARF – Claro.
- Quando isto vem à cabeça de alguém isto revela a cabeça de alguém.

ARF – Exacto. Mas isso incomoda muito. Estas manifestações sociais, de protesto, de viver a democracia, que nós estamos a aprender lá fora, a perceber, a abrir?
- Deve incomodar. Deve ter incomodado um projecto pessoal que nós não conhecemos nem nunca conheceremos.

EP – De José Sócrates?
- De José Sócrates. Mas que temos indícios. Um projecto de carreira pessoal. Isto é tudo muito pequenino, não estamos a falar de grandes cultos de personalidade nem de grandes regimes autoritários, nem nada. Seria á nossa medida mas seria qualquer coisa de novo. E repare como realmente há condições para um novo tipo de obediência ao poder.

ARF – Neste momento reforçado com esta sensação de pânico e de crise que as pessoas estão a viver em que aparece o primeiro-ministro a dizer que vai salvar todos, não é?
- Absolutamente. E repare como é o único. Quando eu falo de autocratismo ou autocracia estou bem consciente que não estou só a falar do Governo, estou a falar sobretudo de uma pessoa. Isto pode parecer anódino, não significativo. Nós temos um Governo, mas um Governo cinzento, morno. Quem é que sobressai ali? Nada.

ARF – Podemos falar de vários nomes.
- Nada. De vários nomes e nada.

EP – Sobressaiam talvez pela parte menos boa.
- Menos boa, não sorriem, não estão contentes com a vida, parecem mais ou menos autómatos. Há ali pessoas muito inteligentes, não se vê nada, tudo aquilo é fato cinzento. E no meio, ou por cima ou ao lado há uma pessoa que tem um sorriso sempre até às orelhas, um dos sorrisos extraordinários que não pára, pára de vez em quando, e como se a vida fosse o triunfo quotidiano do progresso e essa pessoa é o primeiro-ministro. Não é esquisito isto? Aquele sorriso não deveria contagiar os mais próximos? O sorriso e os afectos é o que contagia imediatamente. E não contagia.

EP - Quais são os melhores governantes?
- Não vou nomear.

EP – Há pastas mais sensíveis do que outras. A pasta da Educação é sempre sensível, a pasta da Justiça e da Administração Interna.
- Não lhe sei dizer. Não sei comparar.

EP – Mas a avaliação que acaba de fazer, do cinzentismo. É um cinzentismo geral?
- É um cinzentismo que se estende em geral. Quem é ali a pessoa? Havia ali um ministro, que era o António Costa, que tinha a sua autonomia. Bem, a começar pelo ministro do Trabalho, que é uma tumba, a acabar na ministra da Educação, cuja espontaneidade expressiva...é isso. Falta espontaneidade expressiva aos ministros. São muito simpáticos, podem ser muito simpáticos pessoalmente.

ARF – E até inteligentes.
- Claro. Mas não é isso. Há qualquer coisa que faz com que eles não se manifestem em sorrisos nem sejam espontâneos. Ora isso é o sinal de que eles não pretendem sequer seduzir as pessoas.

EP – E isso passa para os portugueses? Esse cinzentismo passa?
- Passa com certeza.

EP – E pode ser o ponto fraco do Governo?
- Não, há outros. Ponto fraco do Governo é o facto de não ter ideias. Esse é o ponto fraco do Governo. Mas que passa, passa. Repare que há aqui um paradoxo muito grande aparente. O facto de haver manifestações e manifestações não só na Educação mas também em outros campos do trabalho, como os funcionários públicos e as sondagens darem sempre uma vantagem muito grande a José Sócrates. As pessoas estão perdidas, as pessoas e o português por excelência é um ser que está sempre a hesitar. O desassossego do Pessoa é também uma passagem contínua de um sítio para o outro, de um sítio para o outro. Estão sempre a hesitar. E quando aparece alguém que se mostra determinado, forte, etc, a pessoa fica fascinada. Aconteceu com Álvaro Cunhal, aconteceu com Cavaco Silva. Quando aparece assim uma pessoa que sabe o que quer. Pode saber muito pouco, pode ser estreitíssimo, mas sabe o que quer e é dirigente e tem a aura de ser dirigente.

ARF – E os portugueses ficam deslumbrados com esse cidadão?
- Absolutamente. Ora a identificação que os portugueses fazem com o Sócrates, para as sondagens darem os resultados que dão, vem de uma identificação pessoal. Não vem de uma identificação com a política geral do Governo. Porque logo ao lado as sondagens sobre a política do Governo não correspondem a essa sondagem sobre Sócrates.

ARF – Exactamente. É diferente.
- É portanto qualquer coisa de pessoal. É uma relação pessoal. Enfim, ali temos uma referência. Agora, nós que não temos referência de nada, sobretudo do futuro que aí vem, há ali uma pessoa que não só sabe ou parece saber o que quer como está contente. Ainda para mais está satisfeito previamente com o futuro que vai vir. Seguimos uma pessoa assim.

ARF – Somos um bocado fatalistas nisso. É o Salazar, o Cavaco, o Cunhal, agora é o Sócrates e agora não há na oposição ninguém com esse espírito. Uma pessoa que nos inspire essa admiração. O homem ou a mulher estão contentes nós vamos segui-lo de forma acrítica, um bocado como a carneirada, não é?
- É mas também é outra coisa, sabe? Não é só carneirada no sentido pejorativo. É também necessidade de um líder e um líder é um chefe político que tem propriedades muito importantes como o de condensar, atrair uma série de forças e poder utilizá-las para o bem da comunidade. E pode deixar de ser líder, como em certas sociedades, meses depois. Mas durante aqueles meses em que foi líder é uma personagem venerada e que é necessária para a comunidade.

EP – Não se percebe muito bem. Cá está, é a mentalidade dos portugueses ou talvez por não haver uma oposição forte. Se por um lado se manifestam nas ruas contra as políticas do Governo, não só na Educação, por outro quando há uma sondagem o primeiro-ministro continua a subir. O que é que se passa na cabeça dos portugueses?
- É isso que eu quis explicar, enfim, na medida em que isso é possível. As pessoas identificam-se enquanto egos. Quer dizer, eu na minha pessoa sou uma pessoa insegura, incerta, cheia de hesitações, não sei o que fazer e tenho ali, eu, no fundo, identifico-me pessoalmente com o Sócrates.

EP – Nisso José Sócrates é bom?
- Muito bom. Perfeito, como sabe. Não é que seja um grande sedutor, é um bom orador, energeticamente contagiante, ora os portugueses estão ávidos de carisma. Não é que ele tenha carisma, mas o carisma é-lhe atribuído. E portanto recebe-se o carisma por refluxo. É aquilo que se dá e o que se recebe.

ARF – Isso não é também pelo facto de os portugueses terem medo de existir? É verdade isto? Precisam de alguém que tome conta deles, que os proteja, que lhes indique o Governo?
- Eu acho que é verdade e tem raízes históricas muito grandes e que foi sedimentado fortemente durante o salazarismo e que tem a ver com qualquer coisa que existe na sociedade portuguesa. Que é o facto de o português não atingir a maturidade.

EP – Precisa sempre do outro?
- Precisa sempre do outro, há qualquer coisa de adolescente no adulto, na sua estabilidade emocional, emotiva, no seu poder de iniciativa, no seu poder de risco em relação a si próprio.

EP – Podemos dizer que esta não é só uma crise económica?
- Está a falar de Portugal?

EP – Sim.
- Mas qual crise. É que agora nós temos duas, três. Antes da crise mundial já havia uma crise em Portugal. Agora já não há porquê?

ARF – Agora são muitas crises.
- É, não é?

ARF – E esta está a assustar muito mais as pessoas.
- Claro, porque já estavam assustadas e esta não depende de nós. Vamos ver, Agora há um embate, uma espécie de combate entre o sorriso do Sócrates e a crise mundial.

ARF – Agora vamos ver como se resolve.
- Bem, estamos a ver já as primeiras transformações. É que o sorriso já esmoreceu de há uns dias para cá.

EP – E no próprio Governo, não é?
- O Governo nunca teve sorrisos, excepto o ministro Lino, que ri de vez em quando fazendo gafes.

ARF – Voltando à Educação. Sempre tivemos um grande défice na Educação. Os alunos são mal preparados no liceu, chegam à universidade mal preparados e chegam à vida real mal preparados. Este processo nunca foi resolvido nestes anos de democracia. E cada vez está pior, não está? De preparar as pessoas para terem um olhar lá para fora? Como professor universitário não acha isso?
- Eu não posso falar ainda porque está a ser desenvolvido, está a começar a reforma universitária, mas no que diz respeito à reforma do ensino secundário eu acho, hoje acho que é um desastre. Lamento profundamente, tenho uma amargura profunda. Olhe, eu aí tenho uma amargura pelo meu País. Realmente. Realmente eu esperava qualquer coisa, e espero ainda não sei como. Porque é isso que vai mudar o País. Nós vimos de muito longe, de muito longe de analfabetismo, de iletracia, de pobreza. Somos um País secularmente pobre em tudo. Mentalmente e materialmente pobre. E era uma maneira agora de se transformar tudo.

ARF – Foi uma oportunidade perdida?
- Estou convencido que as reformas que estão a ser realizadas não vão transformar o nosso País.

ARF – É muitas vezes acusado de ser um pessimista por aqueles que não gostam de ouvir algumas verdades. É pessimista, optimista, isso pode-se classificar assim o que diz e analisa sobre a sociedade portuguesa?
- Eu já me expliquei várias vezes sobre isso. Eu acho que pessimismo, optimismo são atitudes que se têm em relação a uma linha histórica qualquer. Se se está convencido que essa linha vai para pior é-se pessimista. Se não é-se optimista. Mas são atitudes. Saber se intrinsecamente se é optimista ou pessimista, eu estou convencido que é muito difícil encontrar verdadeiros pessimistas. Porque aqueles que são pessimistas e que segregam, nos seus livros, nos seus artigos o pessimismo no fundo estão a alimentar o seu optimismo visceral, vital, que é de viver, é de gostar de viver com essa actividade de ser pessimista. Mais nada.

EP – Há pouco falava nos 40 anos que esteve fora de Portugal, nos anos que viveu em França, País em que se licenciou e doutorou. Chegou a Portugal em 1976 e fez parte do Governo provisório. Como é que foi recebido quando cá chegou pela comunidade filosófica?
- Não havia.

EP – E por outros sectores académicos?
- No fundo não havia comunidade filosófica. Tenho unicamente a lembrança de ter sido muito bem recebido pelo Fernando Belo, o professor Fernando Belo, que está jubilado agora. E mais ninguém, mais ninguém. Aliás, eu não estava ligado, nem em contacto com a comunidade filosófica. Eu era assessor do secretário de Estado.

ARF – Em 1976. Veio e foi-se embora outra vez.
- Foi.

ARF – As comunidades reagem mal às pessoas que fazem a vida lá fora, reagem mal aos estrangeirados? Faz parte também da forma como encaramos o mundo, o lá fora? É inveja do sucesso?
- Quando a pessoa vai lá para fora e vence. Porque há muitos portugueses e houve muitos portugueses que foram lá para fora e não venceram. Até acabaram muito mal. E eu conheci, até pessoas com talento. O exílio, quer seja forçado ou voluntário, é muito difícil, é muito duro. Muito duro. E há os que viviam, por exemplo, em Paris e constantemente existiam na Avenida da Liberdade em Lisboa. O que lhes interessava. Quer dizer, nunca foram contaminados, nunca tiveram um embate com uma sociedade extremamente dura, se bem que fossem bons tempos, os tempos do gaulismo. Dura porque era uma sociedade fechada também para os estrangeiros, era muito difícil entrar em famílias francesas, conhecer o modo de vida francês, por dentro. Mas como é uma sociedade, uma cidade extraordinária, Paris, havia sempre um cosmopolitismo, para empregar esta palavra, que era absolutamente extraordinário. Agora, isso para dizer o seguinte. As pessoas tinham inveja dos que iam lá para fora. Nós deixámos de ter aquilo que em psicanálise se chama os benefícios secundários da neurose. Quer dizer que não temos a almofadinha da mamã, estamos mal com a noiva ou estamos mal com a namorada corremos logo para a almofadinha da manhã. É um exemplo caricato mas é isso. Que nós tínhamos aqui, que eu tinha aqui. E quando se vai lá para fora deixa-se de ter.

EP – Ainda hoje é assim.
- Ainda hoje é assim. Ainda há os benefícios secundários. É pena.

EP – Eu estou a perguntar se ainda hoje é assim.
- Não. Já é diferente. Primeiro, a comunidade portuguesa agora é muito diferente porque é uma comunidade de segunda geração, terceira geração.

EP – Foi considerado um dos 25 grandes pensadores de todo o mundo por uma conceituada revista francesa. Como é que reagiu a isto e sendo em França?
- Já não reajo, isso é uma coisa. Há 25, há tantos, tantos que não estão lá, portanto não vale a pena falar disso. Há tantos, tantos.

EP – Vale a pena porque é um pensador português e foi a França, o País onde estudou e viveu que lhe dá este mérito.
- Sim. E então? O que é que quer saber? Se eu gostei?

EP – Se gostou.

ARF – Teve alguma reacção negativa em Portugal? Esse facto levou as pessoas a encarar o professor José Gil de uma forma invejosa?
- Ah sim. Até houve um episódio que não foi muito agradável com um grande amigo, que não vale a pena estar a evocar. Houve um episódio desse tipo porque, enfim, sempre histórias de inveja.

ARF – Inveja, sempre.
- Sim, são histórias de inveja.

ARF – Há bocado estávamos a falar da crise e perguntou qual delas, porque há várias crises. Mas esta crise económica e financeira mundial que nos está a atingir em força, apesar do sorriso do primeiro-ministro, não é uma oportunidade para nós alterarmos a nossa forma de estar no mundo e estar na vida?
- Claro, teoricamente pode ser, mas acha que vai ser? Nós vamos ser obrigados a viver de outra maneira. Comos e sabe, ninguém sabe nada da crise. Mas suponhamos que realmente a crise vai durar dez anos, ou vai durar quinze anos. Quinze anos é muito tempo e nós vamos ter de mudar, vamos ter de mudar de maneira de viver, a nossa comunidade vai modificar-se, a relação ricos/pobres vai modificar-se em Portugal. Em quinze anos de crise vai haver muita coisa que se passará, muita água que passará debaixo das pontes com certeza. E nós vamos ter de nos adaptar. Agora, o que é que significa crise durante quinze anos? Se vai haver muita coisa que vai acontecer. A minha ideia, a ideia de toda a gente quando diz uma crise durante quinze anos é que vai ser cada vez pior, lentamente, no sentido de que nós vamos perdendo os pequeninos privilégios, a pobreza vai aumentar, vai atingir cada vez mais classes médias.

EP – Mas ai pode vir outra carga de pessimismo.
- Pode vir até muita outra coisa, sabe.

EP – Ou seja, os portugueses têm motivos para serem pessimistas?
- Têm. Mas que portugueses? Sabe que venda de carros de alta gama aumentou.

ARF – O fosso entre ricos e pobres aumentou imenso.
- E pior. Quer dizer, melhor. Aumentou e esse fosso que era encoberto, que se escondia, por várias razões, até porque os pobres escondiam, esse fosso vai aparecer à tona. E quando aparecer à tona vai ser uma das realidades quotidianas da nossa vida. E isso vai modificar muito a nossa maneira de percepcionar o outro, o outro português e de nos percepcionarmos nós mesmos enquanto colectividade. Não sabemos o que vai acontecer.

ARF – Essa realidade vai aumentar os laços de solidariedade entre os portugueses? Perceber o outro de forma diferente?
- É possível. A sociedade portuguesa guarda um capital muito forte ainda do que se perdeu muito nas sociedades hiperdesenvolvidas ou as sociedades europeias. Que é o capital afectivo. Pode parecer, e é verdade que houve uma diminuição dessa afectividade social. Mas quando um estrangeiro vem a Portugal e vê os portugueses e vê como é recebido, tratado, falado reconhece, percebe isso, percebe que há ali qualquer coisa que já não tem no seu País. E isso chamo uma afectividade colectiva que existe cada vez menos, como sabe nas grandes cidades portuguesas. Mas que Portugal tem ainda.

ARF – É um capital.
- É um capital que está a ser desbaratado e está a ser desbaratado entre outras coisas porque nas grandes reformas com um modelo de gestão e da modernização não há lugar para esse capital afectivo.

ARF – Refere-se a que reformas?
- Reformas da modernização, que não são só portuguesas, de toda a sociedade europeia. Mas em Portugal, que quer ser realizada e posta em prática por estes governantes de hoje.

EP – Que países é que podíamos ter como referência?
- Como referência? Não sei. Eu não sei que referência. Mas se está a falar ainda em capital afectivo possivelmente a Irlanda, onde isso existe.

ARF – E isso tem reflexo na vida do País e do seu desenvolvimento.
- Com certeza.

ARF – O professor diz que Portugal não tem um projecto de futuro. É verdade isto?
- Isso é evidente. É isso mesmo que não existe numa política. Veja. A política da modernização é uma política que está a crer no fundo alargar um certo espaço presente em que as relações de gestão, as relações entre as pessoas dentro de uma empresa, de uma instituição são determinadas por avaliações, por simplificações de actividades, pela produtividade, pela deslocalização do trabalho. Nisso não se toma em consideração absolutamente a questão afectiva. Isto poderá fazer rir. Mas que faça rir é que é pena. Mas quando se fala, por exemplo, em alargar o período em que a mulher pode ficar em casa depois da maternidade nós estamos a falar de uma afectividade que é tomada em conta pelo Estado. E isso é muito importante.

ARF – E o marido poder ficar em casa também.
- Isso. E ter em conta a afectividade, tão premente nos portugueses hoje, ainda, é fazer com que precisamente se corrijam todas as desumanizações que implicam critérios, como os critérios de avaliação.

ARF – Como estamos a ver nos professores.
- Claro.

ARF – E agora vai chegar também aos professores universitários.
- Vai ser isso.

EP – A propósito da afectividade. Na mensagem de Natal do primeiro-ministro, além de se falar no ano difícil, Sócrates agradeceu os sacrifícios feitos. Há uma tentativa de criar laços afectivos com os portugueses?
- Possivelmente. Mas eles não sabem é o que é a afectividade. O discurso do primeiro-ministro é um discurso absolutamente frio. Aquilo é retórico. Mesmo que ele sinta. Ele não está com as pessoas. Estar com as pessoas é precisamente o contrário, é ter uma palavra, saber que aquilo é uma pessoa, antes de ser um elemento ou agente político ou eleitoral. É uma pessoa. Claro. Agora há a política. Como é que eu vou fazer entrar a pessoa dentro da política, tudo isto são problemas que ele não põe.

ARF – Como é que este povo e estas pessoas votam normalmente à esquerda? O que é que a esquerda significa para as pessoas? Ou não entendem o que é esquerda e direita?
- Eu acho que isto tem a ver com 25 de Abril ainda. Não por ser o 25 de Abril. Mas tem a ver no fundo com o facto de o 25 de Abril ter modificado completamente uma desastrosa história da nossa sociedade. Há sítios no Marão em que se divide o tempo cronológico entre no tempo em que eu não comia bifes e depois do 25 de Abril é o tempo em que eu passei a comer bifes. Bom. E quem trouxe os bifes? Foi a esquerda. Mas não foi só os bifes. Os portugueses gostam da liberdade. E vê-se, viu-se logo quando puderam votar. As pessoas não são parvas.

EP – Mas como é que essa esquerda, a do 25 de Abril e a da agora, está?
- Pois. A esquerda está pelas ruas da amargura. Quase. Quase. Só não está porque a direita ainda está pior. O melhor aliado da esquerda é a direita.

EP – A direita precisa dessa figura de líder?
- Absolutamente. Precisa de uma figura de líder. Não creio que a doutora Manuela Ferreira Leite seja uma líder. Poderá ser tudo, do ponto de vista da competência, mas não tem qualidades de líder e qualidades políticas. E vamos assistir ou à sua substituição ou a mais um triunfo por negação de José Sócrates.

ARF – Agora a União Europeia, em que Portugal está desde 1986. A UE vai no bom caminho ou está a cometer erros históricos que podem ser graves no futuro próximo?
- Tem cometido muitos, como sabe. Tem cometido muitos. Agora, resta saber o que se quer da Europa. E voltamos sempre à mesma questão.

ARF – É federalista?
- Eu sou, sim, sou. E até por um federalismo tal que pudesse fazer coexistir uma Europa sem fronteiras geopolíticas com uma Europa que possa ter o peso económico que sustenha toda uma cultura da Europa que se está a perder. Quero eu dizer. A Europa é um território, se quiser, que fez a história, que fez a inteligência do homem. É um território e é mais do que um Estado, uma superpotência. É muito mais do que isso. Há qualquer coisa na Europa que faz dela uma fonte permanente de invenção. E agora estamos a ser invadidos pela cultura de massa americana. E isso é um drama para nós todos.

EP – É uma não-afirmação?
- É uma não-afirmação da Europa. Absolutamente. O drama, o dilema é que para que haja afirmação da Europa é preciso que ela se torne numa superpotência militar, económica. E isso é capaz de acabar com a Europa e fazer da Europa um Estado Nação banal, federal. Temos de inventar uma nova Europa.

ARF – Esta Europa que conhecemos é uma Europa fortaleza. Tem medo dos imigrantes. Também tem medo do fora, de tudo o que vem de fora.
- Claro. Tem medo. Nós vivemos numa espécie de equívoco quase realizado. Por exemplo. A questão da Turquia. Do ponto de vista dos princípios nós temos de admitir que a Turquia entre para a União Europeia. Do ponto de vista prático nós não podemos deixar entrar para a Europa um País que não segue as regras democráticas. E que por outro lado pode ser realmente uma via de entrada do fundamentalismo.

PERFIL

José Gil, autor de várias obras sobre Filosofia, Artes, Dança e Literatura, nasceu em 1939 em Muecate, Moçambique. Aos 18 anos foi para França onde se licenciou em Filosofia na Faculdade de Letras da Sorbone, em Paris, em 1968. Anos mais tarde doutorou-se em Filosofia na Universidade Paris VIII. Em 1976 regressou a Portugal e foi assessor do secretário de Estado do Ensino Superior do IV Governo Provisório. Em 1981 entrou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professor convidado, onde hoje é professor catedrático.

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dezembro 27, 2008

É possível uma vida melhor

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, dirigiu uma mensagem de Ano Novo aos portugueses, disponível na Internet, em que se manifesta convicto de que "sim, é possível uma vida melhor", com uma política alternativa.

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dezembro 26, 2008

Acréscimo de quatro por cento

Ordenado mínimo em Espanha aumenta para 624 euros no próximo ano

O Governo espanhol estabeleceu hoje um aumento de quatro por cento do salário mínimo do próximo ano, que sobe de 600 euros este ano para os 624 euros.

O aumento é superior em 0,5 pontos percentuais face ao que o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, tinha proposto anteriormente aos sindicatos e às associações patronais.

Zapatero reafirmou também hoje o objectivo do Governo de atingir um salário mínimo de 800 euros até ao final do seu mandato, em 2012.

O executivo espanhol aprovou ainda um aumento do valor mínimo das pensões, que subirão em média seis por cento em 2009.

"Estas medidas provam que o Governo tem como objectivo essencial do seu projecto político a melhoria da protecção social e antes de mais dos cidadãos com menores rendimentos", disse Zapatero, citado pelo jornal espanhol "El País".

Em Portugal, o Governo fixou o salário mínimo nacional do próximo ano em 450 euros, valor que traduz um aumento de 24 euros - 5,6 por cento - em relação a este ano.

O Governo assumiu ainda o objectivo de aumentar o salário mínimo para 500 euros em 2011, tal como ficou definido no acordo tripartido assinado em Dezembro de 2006.

Segundo os dados do Governo, o salário mínimo atinge actualmente em Portugal 4,5 por cento da população activa, estimada em mais de cinco milhões de pessoas.

Notícia da Agência Lusa, in «Público»

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Políticos e não políticos

O Procurador-Geral da República garantiu que as investigações criminais em Portugal decorrem "independentemente da condição social, poder económico ou cargo ocupado" pelos suspeitos, sem qualquer distinção entre "políticos e não políticos".

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dezembro 25, 2008

Impugnar

O STAL, vai impugnar judicialmente a transferência dos trabalhadores dos serviços de limpeza da Câmara do Porto para as concessionárias privadas.

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dezembro 24, 2008

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão (in "Máquina de Fogo", 1961; "Poesias Completas", 1968)

Publicado por dizerbem em 11:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 23, 2008

Mais doutores

É com este título que o «Diário de Notícias» desta terça-feira anuncia, na primeira página, um trabalho de duas páginas, onde se diz que “Portugal ganha a Espanha no número de mestres e doutorados, mas cresce menos economicamente”.

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Coches e automóveis… (02)

O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, classifica de “desnecessário” construir um novo Museu dos Coches, um projecto do Governo no valor de 31,5 milhões de euros, financiado com verbas do Casino.

Publicado por dizerbem em 12:12 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 22, 2008

Coches e automóveis…

Câmara de Lisboa vai exigir que Governo reformule projecto do novo Museu dos Coches, rejeitando construção de silo automóvel de 26 metros na frente ribeirinha.

Publicado por dizerbem em 09:56 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 21, 2008

Será?

O plano de salvamento da Qimonda vai permitir manter os dois mil empregos em Portugal e reforçar a transferência de tecnologia para o País, considerou o ministro da Economia, Manuel Pinho. Com um empréstimo de 100 milhões de euros de um banco português ainda não revelado, outro de 150 milhões de euros por parte do Estado alemão da Saxónia e um terceiro de 75 milhões de euros da Infineon, maior accionista da Qimonda, a produtora de chips e semicondutores vai continuar em actividade.

Publicado por dizerbem em 11:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 20, 2008

Política e novas tecnologias

O antigo ministro da Presidência Nuno Morais Sarmento alertou hoje para a necessidade de os partidos políticos se adaptarem aos novos tempos e aproveitarem as novas tecnologias, como a Internet, para manter os jovens interessados pela política.

Publicado por dizerbem em 11:48 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 19, 2008

Três dias num ano…

Os sem-abrigo de Lisboa têm um espaço onde, durante três dias, podem conviver, levantar roupa usada e tomar banho, uma iniciativa da Comunidade Vida e Paz.

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dezembro 18, 2008

'Lentidão' da Justiça

Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, denuncia a "lentidão" da Justiça portuguesa e defende a criação de "mais tribunais e a formação de mais e melhores magistrados".

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dezembro 17, 2008

Por causa dos "recados" à banca

A Associação das Pequenas e Médias Empresas de Portugal (PME Portugal) lamentou hoje que o Governo se limite a dar "recados" à banca ameaçando retirar-lhe as garantias quando o que está em causa é "matéria do foro criminal".

Publicado por dizerbem em 03:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 16, 2008

Crise e os milhões

Mário Soares diz no «Diário de Notícias» desta terça-feira:

Pedem-se e pediram-se sacrifícios para cumprir as metas do défice, impostas por Bruxelas. Mas, ao mesmo tempo, os multimilionários engordaram - os mesmos que agora emagreceram na roleta russa das economias de casino - e os responsáveis políticos (os mesmos, por quase toda a Europa) não pensam em mudar o paradigma ou não anunciam essa intenção e não explicam sequer aos eleitores comuns, os eternos sacrificados, como vão gastar o dinheiro que utilizam para salvar os bancos e as grandes empresas da falência, aparentemente deixando tudo na mesma? E querem depois o voto desses mesmos eleitores, sem os informar seriamente nem esclarecer? É demais! É sabido: quem semeia ventos colhe tempestades...

Publicado por dizerbem em 05:26 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 15, 2008

As coisas começam a complicar-se!

José Sócrates diz que 2009 será ano de "tempos difíceis", que exigem "o melhor de todos, empresários e administração pública". Para enfrentar esses "tempos difíceis", o Governo tem "uma orientação bem clara: estabilização do sistema financeiro, criação de condições de acesso ao crédito e mais investimento público para dinamizar economia e emprego".

Publicado por dizerbem em 05:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 14, 2008

E…

O Banco de Portugal notificou sete antigos administradores do Millennium BCP, no âmbito da investigação a alegadas irregularidades cometidas com recurso a sociedades 'off-shore'.

Publicado por dizerbem em 10:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 13, 2008

Afinal quem governa?

Este título de uma notícia da Agência Lusa, onde se diz que “Sócrates desvaloriza críticas e pede à oposição que apresente alternativas para promover o emprego” dá-nos a ideia de que o primeiro-ministro não tem melhores soluções…

Publicado por dizerbem em 11:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

Combate à crise

Micro e pequenas empresas vão beneficiar de redução na contribuição social que pagam por cada trabalhador com mais de 45 anos, ao longo de 2009, disse o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social. É uma medida do plano de combate à crise aprovada no Conselho de Ministros, que abrange áreas como o emprego o investimento e o apoio às empresas.

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dezembro 12, 2008

JN vence prémio de Ciberjornalismo

O JN ganhou o prémio de “Reportagem Multimédia” com o trabalho “A morte lenta do gelo eterno”, reportagem de Alfredo Leite, com edição de Luís Pedro Carvalho e produção multimédia de Miguel Conde Coutinho. A distinção foi atribuída no âmbito do 1º Congresso de Ciberjornalismo, organizado pelo Obciber.

Publicado por dizerbem em 11:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 11, 2008

Está prometido!

O ministro das Obras Públicas, Mário Lino, anunciou hoje que o Governo vai apresentar, até ao final do ano, um plano global para enfrentar a actual crise internacional.

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dezembro 10, 2008

Direitos Humanos

José Saramago afirma que nada mudou nos últimos dez anos em relação aos Direitos Humanos e acusa governos mundiais de nada fazerem em prol da defesa do indivíduo.

Publicado por dizerbem em 10:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

É 'muito tempo'

A ministra da saúde, Ana Jorge, admitiu, esta quarta-feira, ser "muito tempo" os "quatro meses" que os doentes oncológicos têm de esperar por uma cirurgia e salientou que "progressivamente" esse tempo de espera tem sido reduzido.

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dezembro 09, 2008

Líder do PSD Barreiro demite-se

Cristina Mira Santos anuncia que se vai demitir devido a questões pessoais, garantindo que o futuro líder deverá ser alguém que integrava a sua equipa.

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dezembro 08, 2008

Direitos Humanos

A Amnistia Internacional (AI) apelou aos governos para que o 60.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos - que se celebra quarta-feira - seja uma “data de acção e não apenas de celebração”.

Publicado por dizerbem em 11:49 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 07, 2008

Mais segurança

O Governo vai proceder, em 2009, ao recrutamento de dois mil novos elementos para a PSP e para a GNR, e construirá sete carreiras de tiro para treino.

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dezembro 06, 2008

Um clube de causas

O Vitória de Setúbal assume-se como “um clube de causas” e, para começar, inscreveu a frase “Contra o racismo” nas camisolas da equipa profissional de futebol.

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dezembro 05, 2008

Uma solução!

O presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão consultivo do Governo, considera que a suspensão das greves regionais dos professores e marcação de uma reunião negocial entre Ministério e sindicatos apontam para uma "solução" do conflito.

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'Conta-me como foi…'

A presidenta do PSD, Manuela Ferreira Leite, revela que chamou o líder da bancada social-democrata, Paulo Rangel, à sede do partido para saber quem foram os deputados que faltaram hoje às votações no Parlamento.

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dezembro 04, 2008

Notícia da Lusa

Três administradores da SAD da União de Leiria demitem-se após declarações do árbitro Pedro Proença, que terá acusado João Bartolomeu de ser corrupto.

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dezembro 03, 2008

PM dá esperança aos portugueses

O primeiro-ministro disse esta quarta-feira que as famílias portuguesas podem esperar, em 2009, pagar os combustíveis mais baratos, pagar a renda de casa mais barata, ter um poder de compra como não esperavam, entre outras coisas.
Só que José Sócrates não disse que os portugueses podem esperar e… não alcançar.

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dezembro 02, 2008

Apelo à participação na greve professores

A plataforma sindical dos professores, que foi hoje recebida pelo Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, apelou à participação dos docentes na greve de amanhã e garantiu que está unida na luta contra a política do Ministério da Educação.

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dezembro 01, 2008

Testes da SIDA vão ser gratuitos

A ministra da Saúde, Ana Jorge, anunciou que os testes da Sida (VIH1 e VIH2) vão passar a ser gratuitos para todos os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

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A aritmética do «Público» (02)

Na edição online do «Público» lia-se:
'Comissão Política do PCP com menos quatro elementos'
Agora já se lê:
'Comissão Política do PCP com menos cinco elementos'

Publicado por dizerbem em 02:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

A aritmética do «Público»

Na edição online do «Público» lê-se:
'Comissão Política do PCP com menos quatro elementos
A Comissão Política do PCP foi reduzida de 24 para 19 elementos, com as saídas de Luísa Araújo, Albano Nunes, Rosa Rabiais, José Neto, Agostinho Lopes, Sérgio Teixeira e José Casanova e com a entrada de dois novos dirigentes, Jaime Toga e Vladimiro Vale.

´Sete que saíram, menos dois que entraram… dá cinco!

Publicado por dizerbem em 02:23 PM | Comentários (0) | TrackBack